domingo, 25 de setembro de 2016

COSÌ FAN TUTTE, Royal Opera House, Londres / London, Setembro / September 2016


(review in English below)

A nova produção da opera de Mozart Così fan Tutte é mais um triunfo da prestigiada Royal Opera House de Londres.

A encenação do jovem Jan Philipp Gloger é interessante, original e muito agradável, embora misture épocas o que, por vezes, quebra a continuidade da acção. Gloger recorre, mais uma vez, ao espectáculo dentro do espectáculo.


Logo durante a abertura aparecem os cantores solistas, vestidos à época, a agradecer os aplausos do público, fazendo os gestos que habitualmente os cantores e as cantoras fazem nesta ocasião. Depois percebemos que estes não são os cantores solistas. Os dois casais aparecem na plateia e são espectadores da Royal Opera.

Don Alfonso será um dirigente da peça de teatro que decorrerá até final. Guglielmo e Ferrando vão para a guerra. O quadro com uma estação de comboios de meados do século passado é bem conseguido. Reaparecem disfarçados num bar moderno e aí começam a conquista das suas noivas. Noutro quadro aparece o jardim do Éden, com muitas maçãs, dinheiro e a serpente. Há também quadros em que a acção decorre num ambiente de teatro barroco.


Já no final, a festa do casamento é muito dinâmica. Num grande painel luminoso em que está escrito COSÌ FAN TUTTE, retiram algumas lâmpadas do E e passa a COSÌ FAN TUTTI.


A encenação é vistosa, alegre, muito diversificada, mas um pouco confusa. Uma das mensagens principais que o encenador pretende dar é que a instabilidade das emoções humanas não se aplica apenas no feminino, mas a todos e em todas as épocas.


O maestro russo Semyon Bychkov foi muito bom, embora tenha imposto alguns tempos excessivamente lentos. A orquestra esteve ao mais alto nível.


Os cantores solistas foram todos excelentes. Os dois pares de noivos eram jovens, o que deu grande credibilidade à interpretação cénica e permitiu alguns momentos de erotismo bem conseguidos.

O baixo-barítono italiano Alessio Arduini foi um Guglielmo de voz bonita, firme e potente. Presença sempre muito ágil e insinuante, muito favorecido pela sua figura.


O tenor alemão Daniel Behle fez um Ferrando muito credível e mais romântico. Na belíssima aria Un’aura amorosa foi magnífico, com um registo agudo de invulgar beleza.


Corinne Winters, soprano americana, foi a Fiordiligi indecisa de voz quente e belo soprano. Esteve particularmente bem nas árias Come scoglio e, sobretudo, Per pietà, ben mio, perdona tocante na sensibilidade e tristeza. Fantástica.


A mezzo americana Angela Brower foi uma Dorabella de voz lírica e firme que esteve sempre bem e afinada ao longo de toda a récita.



O barítono alemão Johannes Martin Kränzle fez um Don Alfonso seguro e muito bem adaptado à personagem.


A soprano espanhola Sabina Puértolas foi uma Despina enérgica e de grande qualidade, vocal e cénica.


A Royal Opera apostou na juventude (produtor e cantores) e, mais uma vez, ganhou.







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Così fan Tutte, Royal Opera House, London

The new production of Mozart's opera Così fan tutte is another triumph of the prestigious Royal Opera House in London.

The staging by young director Jan Philipp Gloger is interesting, unique and very pleasant, although it mixes different periods of time that sometimes breaks the continuity of the action. Gloger uses, again, a show within the show.

Just in the opening the soloists singers appear, dressed in Mozart’s time, and thank the applause of the audience, making the gestures usually singers make on this occasion. Quickly we realize that these are not the soloists. The two couples appear in the audience and are members of the audience of the Royal Opera.

Don Alfonso is a director of the play and will run until the end. Guglielmo and Ferrando go to war. The setting with a train station in the middle of last century is well managed. Disguised, they reappear in a modern bar and then begin the conquest of their brides. In another setting the garden of Eden appears, with many apples, money and the serpent. There are also settings in which the action takes place in a baroque theater environment.

At the end, the wedding party is very dynamic. In a large display panel where it is written COSÌ FAN TUTTE, the removal some lamps from the E and turns into COSÌ FAN TUTTI.

The staging is fine, cheerful, very diverse, but a little confusing. One of the main messages that the director wants to give is that the instability of human emotions does not only apply only to women, but to all and at all times.

Russian maestro Semyon Bychkov was very good, although some times he imposed excessively slow tempi. The orchestra was at the highest level.

The soloists were all excellent. The two couples were young, which gave great credibility to the stage interpretation and allowed some moments of eroticism.

Italian bass-baritone Alessio Arduini was a Guglielmo with a beautiful, firm and powerful voice. His presence always very agile and ingratiating, much favored by his figure.

German tenor Daniel Behle was a more romantic and very credible Ferrando. The beautiful aria Un'aura amorosa was magnificent, with a top register of unusual beauty.

Corinne Winters, American soprano, was a fragile Fiordiligi with a warm beautiful soprano voice. She was particularly well in the arias Come scoglio and especially Per pieta, ben mio, perdona that she sang with touching sensitivity and sadness. Fantastic.

American mezzo Angela Brower was a lyrical Dorabella with firm voice that was always in tune throughout the performance.

German baritone Johannes Martin Kränzle was a firm and very well suited to the character of Don Alfonso, and Spanish soprano Sabina Puértolas was an energetic Despina with high quality, vocal and scenic.

The Royal Opera bet on youth (director and singers) and, once again, won.


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sábado, 10 de setembro de 2016

Johan Botha 1965 - 2016

(text in English below)

Aos 51 anos morreu o grande tenor sul-africano Johan Botha. Era um dos meus cantores favoritos e, por isso, aqui deixo este registo. Neste blogue vários autores escreveram sobre ele, sempre com referencias altamente elogiosas.

Botha tinha uma voz de invulgar beleza, com timbre lírico e grande facilidade nas notas mais agudas. O poderio vocal era imponente, mesmo avassalador. Sempre afinado, mantinha qualidade melódica de topo em toda a grande extensão da sua voz. Enchia qualquer teatro de ópera, por maior que fosse. Conseguia imprimir emoção vocal a todas as personagens que encarnava, fraseando claramente os textos que cantava.

(Tannhäuser. Royal Opera House. London)

Tive o privilégio de o ouvir ao vivo várias vezes, em diversos papéis, mas foi em Wagner que as suas interpretações mais se destacaram. Para mim era o melhor Tannhäuser no activo e um dos melhores de sempre. Como desconhecia a sua doença, ainda alimentava a esperança de o voltar a ver nesse papel. Infelizmente tal não acontecerá.

                       (Tannhäuser. Metropolitan Opera. New York)

Desaparece o grande cantor, amargamente ficam as boas memórias e muitos registos de som e imagem que permitirão recordar mais um grande cantor lírico da história da ópera. 

RIP Johan Botha!



Johan Botha, the great South African tenor died aged 51. he was one of my favorite singers. In this blog several authors have written about him, always with highly laudatory references.

Botha had a voice of unusual beauty, with lyrical tone and ease at the top notes. The vocal power was impressive, even overwhelming. Always tuned, he maintained top melodic quality throughout the vast extent of his voice. Filling any opera house, however great it was. He expressed vocal emotion to all characters he sang, always with clearly phrasing of the texts.

I was privileged to hear him live several times, in different roles, but it was in Wagner that his performances stood out. For me he was the best Tannhäuser of the present and one of the best ever. As I was unaware of his illness, I still hoped to see him once more in that role. Unfortunately this will not happen.


The great singer disappears, bitterly remain good memories and many sound and image recordings with which we will remember a great opera singer in the history of opera. 
RIP Johan Botha!

sábado, 27 de agosto de 2016

WILLIAM PEREIRA TRANSFORMA "O ANÃO" EM OBRA PRIMA



Crítica de Ali Hassan Ayache no Blog de Ópera e Ballet

Beleza física nunca foi um dos atributos do compositor Alexander Von Zemlinsky e consequentemente a mulherada não o via como um galã ou símbolo sexual. A rejeição o atraiu para compor "O Anão", baseado no conto de Oscar Wilde (este rejeitado em sua época por ser homossexual) "O Aniversário da Infanta". O texto é pra lá de maluco, fala de uma infanta que ganha de presente um anão com problemas físicos e que nunca se olhou no espelho. O catatau se julga boa pinta e tem a ousadia de se apaixonar pela infanta. Quando declara seu amor a ela e se olha no espelho a ficha cai e todos os dramas do mundo desabam sobre suas costas.
   
Rejeição, indiferença e intolerância são características inerentes do ser humano desde sua existência e estão marcadas no libreto. As dores e traumas do personagem central foram explorados de forma única pela competente direção de Willam Pereira na apresentação do Theatro São Pedro/SP. Sua visão favorece o psicológico, atua na mente e no imaginário onde os personagens falam através de gestos e expressões. Cada um a sua maneira está inserido em um contexto social e se mostra de forma linear.
   
O cenário de Renata Pati e Karina Machado não tem grandes palácios ou salões nobres, os figurinos  de Olintho Malaquias mostram o temperamento de cada personagem e a luz de Fabio Retti leva a um casamento das cenas. O branco total do cenário remete a pureza e a inocência sentimental do Anão, os cubos interagem movimentando-se e formando cenas imaginárias e o teto é um requinte de cores em fios que descem como uma chuva de pétalas. Willam Pereira faz um teatro moderno, antenado com o enredo que através da imaginação leva o espectador à reflexão. Foge dos clichês atuais onde todos tem que defender as causas dos excluídos, devem amar os animais de estimação e a natureza. 
   
O problema é que o diabo mora nos detalhes e esses que se mostram corretos e defensores das grandes causas sempre tem uma atitude não tão correta ou um pensamento nem sempre "adequado". Pereira mostra o drama humano e nada é mais importante que isso. Simplesmente perfeito na sua concepção. Você pode não gostar dos críticos William, às vezes os críticos gostam de você.
   
A Orquestra do Theatro São Pedro comandada por André dos Santos apresentou sonoridade volumosa e densa, realçando a força da música de Zemlinsky em prol da delicadeza das notas. O Coro sempre afinado e recheado de solistas da casa cantou com sonoridade esplendida. Os solistas mostraram competência para encarar as difíceis passagens: Gustavo Lassen evolui a cada apresentação, voz de baixo com excelentes graves. Mar Oliveira faz um Anão denso e dramático cenicamente conciliando um timbre que não é dos mais agradáveis embora combine com as dores do personagem. A Infanta interpretada por Maria Sole Gallevi cantou com um timbre delicado e técnica correta, atuação cênica correta e linear. 
  
 Mais uma vez o teatro da Barra Funda traz títulos raros em montagens com roupagem moderna, que privilegia os cantores da casa e solistas brasileiros de extrema qualidade. Enquanto isso na Praça Ramos o clima é de poucos amigos, com o titular depondo em CPIs da Prefeitura Municipal e tendo a quebra de sigilo eletrônico decretada pela justiça. Quanta diferença! 


Ali Hassan Ayache

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

TENOR JONAS KAUFMANN ESTÁ ACIMA DOS MORTAIS



Crítica de Ali Hassan Ayache no blogue de Ópera e Ballet.

  Para comemorar os 35 anos de sua fundação o Mozarteum Brasileiro trouxe, pela primeira vez ao Brasil, um dos maiores tenores da atualidade, Jonas Kaufmann. Não faltam adjetivos para glorificar a voz e as interpretações do grande tenor alemão na crítica especializada. Posso afirmar, após assistir ao recital do dia 10 de Agosto na Sala São Paulo, que todos os comentários positivos estão corretos.

   Muitos reclamaram do programa, eu inclusive torço o nariz quando vejo apenas canções de compositores românticos. Sempre queremos árias de óperas. A voz de Kaufmann faz esquecer Toscas, Rigoletos e Carmens. Uma voz única, exclusiva e munida de uma técnica impecável foi apresentada com um timbre sublime. Homogenia em todos os registros, consegue ter agudos brilhantes, médios excelentes e graves consistentes. A invulgar beleza timbrica é aliada a uma projeção ímpar, onde todas as notas são emitidas com clareza exuberante. Sentado no balcão mezanino da Sala São Paulo parecia que o tenor cantava ao meu lado.

   O programa inicia com as belas canções de Schubert e Schumann. O ponto alto foram os "Três Sonetos de Petrarca" de Liszt e as canções de Strauss. Nelas o tenor exibiu toda a dramaticidade, lirismo e sentimentos expressos na música desses grandes compositores. Do alegre ao triste, do cômico ao dramático: Kaufmann passeia pelos sentimentos humanos com facilidade e velocidade espantosa. Faz o canto lírico complexo parecer fácil.

   O bis foi um espetáculo à parte, voltou cinco, alguns dizem seis vezes e mandou petardos operísticos como "Recondita Armonia" da ópera "Tosca" de Puccini e a grande ária da "Adriana Lecouvreur" de Cilea. Arriscou cantar em português a empolgou a todos. Um dos maiores tenores da atualidade se apresenta no Brasil no auge vocal e técnico. Kaufmann esta acima dos pobres tenores mortais, vive em outra dimensão, no olimpo dos cantores líricos.

Ali Hassan Ayache

terça-feira, 19 de julho de 2016

MADAMA BUTTERFLY, English National Opera, Junho / June 2016

(review in English below)

Estreada em 2005 aqui na English National Opera, esta extraordinária produção da Madama Butterfly de G. Puccini, da autoria de Anthony Minghella, vai na 6ª reposição e já foi importada para outros teatros de opera, entre eles a Metropolitan Opera de Nova Iorque.

Já várias vezes escrevi neste blogue o meu fascínio por este espectáculo que, sempre que posso assistir, não perco. É uma das melhores encenações operáticas que tive oportunidade de ver. Num palco vazio as luzes, os biombos, os panos, as lanternas e o colorido do vestuário proporcionam-nos um espectáculo de uma beleza insuperável. Sendo todo ele magnífico, tem dois momentos superlativos, o final do primeiro acto com a chuva dourada e as lanternas e as marionetas japonesas bunarko (e sua excelente manipulação pelos figurantes de negro) que encarnam, entre outros, o filho dos protagonistas. Foi a primeira vez que assisti ao espectáculo no teatro para o qual Minghella o criou e achei que foi o melhor, com pormenores que foram modificados na encenação de Nova Iorque.


O maestro Richard Armstrong ofereceu-nos uma interpretação musical algo desagradável porque colocou a orquestra quase sempre em forte, o que prejudicou a audição dos cantores.

O soprano Rena Harms foi uma Cio Cio San bem cenicamente, embora não tivesse a figura da jovem de 15 anos (mas quem a tem?). Vocalmente esteve aceitável, o timbre é algo agreste e faltou-lhe emoção vocal.



David Butt Philip, jovem tenor inglês, interpretou o Pinkerton. Boa presença cénica e voz agradável e afinada, embora pouco potente. Contudo, também lhe faltou emotividade.


O cônsul americano foi o barítono George von Bergen. A voz é muito expressiva e, ao contrário dos outros solistas, foi emotivo tanto na fase inicial de cumplicidade com o Pinkelton, como na sua condenação final.


A Suzuki do mezzo Stephanie Windsor-Lewis foi uma cantora de voz poderosa e imponente, mas a personagem ficou muito aquém da submissa criada que o papel exige.



Matthew Durkan foi um príncipe Yamadori que mal se ouviu e o Goro de Alun Rhys-Jenkins também não foi melhor.


Ao contrario do que deve ser a opera, foi um espectáculo excelente para se ver, mas não para se ouvir.







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Madama Butterfly, English National Opera, June 2016

Premiered in 2005 here in English National Opera, this extraordinary production of Madama Butterfly by G. Puccini, directed by Anthony Minghella, is in the 6th revival, and has been imported to other opera theaters, including the Metropolitan Opera in New York.

I have often expressed in this blog my fascination with this production, whenever I can watch it, I do not lose the opportunity. It is one of the best operatic stagings that I had the opportunity to see. An empty stage, lights, screens, cloths, lanterns and colorful clothing provide us with a show of unsurpassed beauty. And it has two superlatives, the end of the first act with the golden rain and Japanese lanterns, and bunarko Japanese puppets (and its excellent handling by the people in black) that includes the son of the protagonists. It was the first time I saw the opera at the theater for which Minghella created it, and thought it was the best, with details that were modified in the New York staging.

Conductor Richard Armstrong offered us a musical interpretation somhow unpleasant because he made the orchestra almost always play in forte, which jeopardized the hearing of the singers.

Soprano Rena Harms was a decent Cio Cio San, though she did not have the figure of a 15 year old girl (but who has?). Vocally she was acceptable, but the tone is something wild and missed vocal emotion.

David Butt Philip, young English tenor, played the Pinkerton convincingly. Good stage presence and pleasant and refined voice, although not strong. However, he also lacked emotion.

The American consul was the baritone George von Bergen. The voice is very expressive and, unlike the other soloists, he was emotional both in the initial phase of complicity with Pinkelton, as in his final conviction .

Suzuki was mezzo Stephanie Windsor-Lewis, a singer of powerful and commanding voice, but the character has fallen far short of the submissive maid the role requires.

Matthew Durkan was a Yamadori prince who was barely audible and Goro’s Alun Rhys-Jenkins also was no better.

Contrary to what should be the opera, this was a great performance to see but not to hear.


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