quarta-feira, 19 de julho de 2017

LA FILLE DU RÉGIMENT, Liceu, Barcelona, Maio / May 2017


(review in English below)

Mais uma vez tive oportunidade de assistir a esta encenação de Laurent Pelly da ópera La Fille du Régiment de Donizetti. É um espectáculo muito agradável, bem concebido e divertido, sobre o qual já se escreveu neste blogue aqui, aqui e aqui.





Desta vez a direcção musical, aceitável, foi do maestro Giuseppe Finzi que, quando subiu ao palco para agradecer os aplausos, tropeçou num dos adereços do solo e estatelou-se no chão, o que raramente se vê.



Aliás, este não foi o único incidente cénico. No primeiro acto, uma das botas do Tonio desapertou-se e os longos cordões arrastavam-se pelo chão o que, nas cenas com vários intervenientes (coro) também provocou vários tropeções mas, felizmente, sem quedas.

A Marie foi interpretada pela espanhola Sabina Puértolas. Foi uma boa interpretação, o papel de soprano lírico é muito exigente e esteve quase sempre em grande nível. Apenas no registo mais agudo por vezes o som era algo nasalado e perdia qualidade. Em palco foi a melhor. A figura ajuda muito e a encenação também.



O tenor mexicano Javier Camarena foi um Tonio estupendo. Tem um timbre vocal muito bonito, a voz é extensa e intensa e ouve-se sempre sobre a orquestra. Na mais famosa ária da ópera Pour mon ame foi excelente e recebeu uma ovação de quase 10 minutos. Repetiu a ária e, na repetição, foi ainda melhor. Foi, de longe, o melhor cantor da noite.



A Marquesa de Berkenfield foi interpretada pela contralto polaca Ewa Podles. A senhora tem uma voz com um registo grave impressionante e cumpriu o papel com correcção.



O baixo barítono italiano Simone Alberghini foi um Sulpice de voz muito agradável e muito boa presença cénica.



O Hortensius do barítono espanhol Isaac Galán tem um papel pequeno mas esteve ao nível dos restantes.



Foi um espectáculo muito agradável, mas não a obra prima que presenciei quando assisti à mesma produção cantada pela Natalie Dessay e pelo Juan Diego Florez.








****


LA FILLE DU RÉGIMENT, Liceu, Barcelona, ​​May 2017

Once again I had the opportunity to see the opera La Fille du Régiment by Donizetti in the staging/direction by Laurent Pelly of. It's a very nice production, well designed and entertaining, which has already been commented on this blog here. here and here.

In this performance the musical direction was ok, by maestro Giuseppe Finzi who, when appeared on stage to thank the applause, stumbled on one of the props of the ground and fell on the ground, which is rarely seen.

Incidentally, this was not the only stage incident. In the first act, one of Tonio's boots loosened and the long strings dragged on the floor which, in the scenes with several players (choir) also caused several stumbles but, fortunately, without any falls.

Marie was interpreted by Spanish singer Sabina Puértolas. She was a good performer, the role of lyric soprano is very demanding and she was almost always at her best. Only in the top notes was the sound sometimes nasal and lost quality. On stage she was the best. The figure helps a lot and the staging also.

Mexican tenor Javier Camarena was a great Tonio. He has a very beautiful vocal tone, the voice is extensive and intense and is always heard over the orchestra. In the most famous aria of the opera Pour mon ame he was excellent and received an ovation of almost 10 minutes. He repeated the aria and, in the second time, he was even better. He was by far the best singer of the night.

Marquise of Berkenfield was Polish contralto Ewa Podles. She has a voice with an impressive low register and interpreted the role with correction.

Italian bass baritone Simone Alberghini was a Sulpice with a very pleasant voice and very good stage presence.

Hortensius by the Spanish baritone Isaac Galán plays a small role but was at the quality level of the other soloists.

It was a very good performance, but not the masterpiece I witnessed when I saw the same production sung by Natalie Dessay and Juan Diego Florez.


****

quarta-feira, 12 de julho de 2017

RIGOLETTO, METropolitan Opera, Abril / April 2017



 (Review in English below)

Rigoletto de Verdi esteve em cena na Metropolitan Opera House de Nova Iorque em Abril de 2017.
A acção trazida para os anos 60 da década passada em Las Vegas, passada em casinos e outras casas de diversão. A encenação é de Michael Mayer, muito vistosa e eficaz. Os anúncios luminosos são de belo efeito. Os elevadores laterais no palco também. O Duque é dono e entertainer de um casino, Rigoletto um comediante. O Monterone é um árabe que, ao ser preso, lança a maldição ao Rigoletto. A casa onde mantém a filha Gilda é num 5º andar, acessível por um elevador na parte lateral do palco. O rapto da Gilda é feito pelos empregados do Duque, depois de subornarem a empregada Giovanna.




No final o Rigoletto vai a casa do Sparafucile, assassino profissional, um clube nocturno nos arredores da cidade, e encomenda a morte do Duque, que está na casa a divertir-se com Maddalena, irmã do assassino. A pedido da irmã, Saprafucile concorda em não assassinar o Duque mas outra pessoa que apareça. É uma noite de tempestade, muito bem conseguida com os efeitos luminosos, e quem aparece vestida de homem é a Gilda. Após ser ferida mortalmente, é colocada no porta bagagens de um carro da época. O final é convencional.



O maestro foi Pier Giorgio Morandi. No início houve alguns desencontros entre a orquestra e cantores mas, a partir do 2º acto, melhorou substancialmente.

O Duque foi o tenor Joseph Calleja. A voz é potente mas algo monocórdica e o timbre mais caprino que nunca. Em palco não transmitiu qualquer emotividade nas diferentes cenas, nomeadamente quando contracenou com a Gilda.



O barítono Zeljko Lucic foi um excelente Rigoletto. Tem um timbre belíssimo, voz grande e transmitiu todo o rol de sentimentos por que vai passando ao longo da ópera.



A Gilda foi interpretada pela soprano Olga Peretyatko. Outra decepção. Tem uma voz relativamente pequena, não é bonita, mas o pior é a emissão muito irregular. Apesar de ter uma boa figura para a personagem e da grande agilidade em palco, não foi convincente.



Nos papéis secundários, os mezzos Maria Zfichak como Giovanna e Nancy Fabiola Herrera como Maddalena cumpriram sem deslumbrar. Também Jeff Mattsey fez um Marullo banal e que mal se ouviu.



Ao mais alto nível estiveram os dois baixos, Robert Pomakov como Monterone e, sobretudo, Stefan Kocan como Sparafucile. Vozes imponentes, registo mais grave impressionante e excelente presença em palco.







***


RIGOLETTO, METropolitan Opera, April 2017

Verdi's Rigoletto was on stage at the Metropolitan Opera House in New York in April 2017.
The action was brought to the 60's of the past decade in Las Vegas, spent in casinos and other houses of pleasure. The staging is by Michael Mayer, very showy and effective. The light advertisements are of good effect. The side elevators on stage also. The Duke owns and is an entertainer of a casino, Rigoletto a comedian. Monterone is an Arab who, when arrested, casts a curse on Rigoletto. The house where her daughter Gilda is kept is on the 5th floor, accessible by an elevator on the side of the stage. The abduction of Gilda is done by the Duke's employees, after bribing his maid Giovanna.
In the end Rigoletto goes to Sparafucile's house, a professional assassin, a nightclub on the outskirts of the city, and orders the death of the Duke, who is in the house to have fun with Maddalena, sister of the murderer. At her sister's request, Saprafucile agrees not to assassinate the Duke but another person to appear. It's a stormy night, very well staged with the light effects, and who appears dressed as a man is Gilda. After being mortally wounded, she is placed in the luggage compartment of a car of the time. The final is conventional.

The maestro was Pier Giorgio Morandi. At the beginning there were some disconnections between the orchestra and singers but, from the 2nd act on, it improved substantially.

The Duke was tenor Joseph Calleja. His voice is potent but monochromatic and the timbre more caprine than ever. On stage he did not transmit any emotion in the different scenes, especially when he interacted with Gilda.

Baritone Zeljko Lucic was an excellent Rigoletto. He has a beautiful timbre, a great voice and transmitted all the roll of feelings that go through the opera.

Gilda was performed by soprano Olga Peretyatko. Another disappointment. She has a relatively small voice, not pretty, but the worst is the very irregular emission. Despite having a good figure for the character and a great agility on stage, she was not convincing.

In secondary roles, mezzos Maria Zfichak as Giovanna and Nancy Fabiola Herrera as Maddalena were ok. Jeff Mattsey was a barely heard Marullo.

At the top level were the two basses, Robert Pomakov as Monterone and Stefan Kocan as Sparafucile. Stunning voices, impressive low register and excellent stage presence.


***

quarta-feira, 5 de julho de 2017

DER FLIEGENDE HOLLÄNDER / O Navio Fantasma, METropolitan Opera, New York, Abril / April 2017



 (Review in English below)

A segunda opera de Wagner que a Metropolitan Opera House de Nova Iorque apresentou na presente temporada foi Der Fliegende Holländer.


A encenação de August Everding é magnífica. Abordagem clássica, o primeiro acto começa no convés do barco de Daland. Quando o timoneiro adormece, surge no meio da neblina a enorme proa do navio fantasma, donde o holandês desce numa escada. No segundo acto Mary supervisiona o trabalho das mulheres, incluindo o de Senta, filha de Daland que está impressionada com um retrato de um homem vestido de negro – o holandês. Erik vê o seu amor rejeitado por Senta que seguirá o holandês. Quando está sozinha este surge completamente vestido de negro, noutro efeito cénico estupendo. O terceiro acto passa-se no porto, sob neve e nevoeiro. O coro e movimentação dos marinheiros são magníficos. Quando Erik aborda a Senta, o holandês observa de cima e decide partir, subindo para o navio fantasma. Mais um momento visualmente impressionante. Sem dúvida uma das melhores encenações da ópera que alguma vez vi e acho que Wagner gostaria que assim fosse.

A direcção musical de Yannick Nézet-Séguin foi sublime em som e drama wagnerianos! Logo na abertura se percebeu que iríamos assistir a um espectáculo de excepção, e assim foi! O Coro e a Orquestra também a um nível estratosférico. James Levine fica muito bem substituído.



Daland foi superiormente interpretado pelo baixo Franz-Josef Selig, como aliás sempre aconteceu quando o vi. É daqueles cantores que não falha e, mais uma vez, assim aconteceu.



O barítono Michael Volle fez um Holandês perfeito. Falta-lhe no registo mais grave aquele tom cavernoso que sempre fica bem neste papel, mas o cantor compensa com uma interpretação notável em tudo. A voz é magnífica, potente, timbre belíssimo e técnica insuperável. Há partem que que quase fala, o que dá um tom mais sombrio à interpretação. Em palco é insuperável, uma figura sempre assustadora, muito ajudado pela encenação. O primeiro encontro com a Senta é paradigmático.



Verdadeiramente sensacional foi a soprano Amber Wagner como Senta. Uma interpretação brutal, ao nível dos grandes sopranos dramáticos wagnerianos. Uma cantora a seguir. Voz poderosíssima, sempre bem sobre a orquestra e de grande emotividade dramática. Melhor seria impossível. Fantástica! Diria que o apelido diz tudo.




A Mary da mezzo Dolora Zajick foi outra interpretação de grande nível, apesar de curta para uma cantora com os créditos de Zajick.



Duas agradáveis surpresas foram os jovens tenores norte americanos Ben Bliss como timoneiro e Aj Glueckert como Erik. Ambos muito bons, vozes frescas e límpidas, e interpretações cénicas dinâmicas e convincentes.



Um dos melhores espectáculos de ópera que vi na presente temporada.






*****


DER FLIEGENDE HOLLÄNDER, METropolitan Opera, New York, April 2017

The second Wagner opera that the Metropolitan Opera House of New York presented this season was Der Fliegende Holländer.

August Everding's staging is magnificent. Classical approach, the first act begins on the deck of Daland's boat. When the helmsman falls asleep, the huge prow of the ghost ship rises in the haze, where the Dutchman descends on a ladder. In the second act Mary oversees the work of the women, including that of Senta, daughter of Daland who is impressed by a portrait of a man dressed in black - the Dutchman. Erik sees his love rejected by Senta who will follow the Dutchman. When she is alone he appears completely dressed in black, in another top scenic effect. The third act takes place in the harbor, under snow and fog. The choir and sailors movements are magnificent. When Erik approaches Senta, the Dutchman watches from above and decides to leave, climbing to the ghost ship. Another moment visually impressive. Undoubtedly one of the best performances of this opera I have ever seen and I think this way was as Wagner would like it to be.

Musical direction of Yannick Nézet-Séguin was sublime in wagnerian sound and drama! At the opening we realized that we were going to see an exceptional performance, and it was! The Choir and Orchestra were also on a stratospheric level. James Levine will be very well replaced.

Daland was superiorly interpreted by bass Franz-Josef Selig, as always happened when I saw this singer. He is one of those singers that does not fail and, once again, it was so.

Baritone Michael Volle was a perfect Dutchman. He lacks in the lower record that cavernous tone that always isounds well in this role, but the singer compensated with a remarkable interpretation. The voice is magnificent, powerful, beautiful timbre and unsurpassed technique. There are parts where he almost speaked, which gave a darker tone to the interpretation. On stage he was unsurpassed, an always scary figure, greatly aided by staging. The first meeting with Senta was paradigmatic.

Truly sensational was soprano Amber Wagner as Senta. A sublime interpretation, at the top level of the great Wagnerian dramatic sopranos. She is a singer to follow. Powerful voice, always over the orchestra and great dramatic emotion. Better would be impossible. Fantastic! I'd say the name says it all.

Mary of mezzo Dolora Zajick was another high-level interpretation, though short for a singer with Zajick's credits.

Two pleasant surprises were the young North American tenors Ben Bliss as helmsman and Aj Glueckert as Erik. Both were very good, fresh and clean voices, and dynamic and convincing stage interpretations.

One of the best operas I've seen this season.


*****